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Martha Beck
BRASÍLIA. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, defendeu em audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado que o governo tem o direito de se manifestar sobre os rumos que a Vale, maior empresa privada e exportadora do país, toma em seus negócios, pois controla 60% da mineradora. No entanto, disse que isso não caracteriza ingerência política no processo de substituição de Roger Agnelli, pois o Bradesco - a quem cabe, por acordo de acionistas, a indicação da presidência da mineradora - teria tomado a decisão de afastar o executivo de forma autônoma, e a União sempre defendeu uma "solução profissional, técnica".
Mantega afirmou aos senadores que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva manifestou claramente sua insatisfação com a demissão em massa de trabalhadores logo após o estouro da crise e com o abandono de projetos siderúrgicos, considerados pelo governo estratégicos para o país, mas "o senhor Roger Agnelli simplesmente ignorou, continou fazendo aquilo que achava necessário".
- Não nos esqueçamos de que a Vale tem 60% (fatia nas mãos de acionistas) de Previ (fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil) e BNDES. O governo tem participação, tem que se preocupar com a empresa, e ela tem que contribuir, sim, para o país - salientou o ministro. - Ela (Vale) tem que ter lucro, remunerar acionistas, ter bases sólidas, porém tem que olhar para os interesses do país.
Mas isso não quer dizer que o governo tenha atuado politicamente para derrubar Agnelli, defendeu Mantega:
- O Bradesco tomou a decisão autonomamente. Talvez tenha havido alguma politização por parte da Vale, e não por parte do governo. Não trouxemos a solução para o nível político, até porque sempre quisemos uma solução profissional, técnica, que me parece que foi o que ocorreu.
O ministro lembrou que a empresa não executou ou atrasou projetos estratégicos, especialmente na área de siderurgia:
- Não escondo o interesse do governo em que a Vale invista em siderurgia e aumente o seu valor agregado. Mas o governo nunca fez nenhuma imposição -ponderou Mantega. - A Vale tinha prometido fazer investimentos no Pará. Não fez, e isso, evidentemente, desagradou ao (ex-)presidente Lula.
Mantega relatou ainda aos senadores outro episódio que desagradou seriamente ao governo, entre o fim de 2008 e o início de 2009, quando a crise financeira internacional produzia seus piores efeitos nas economias global e brasileira:
- Quando começou a crise, o governo disse que ia dar condições para que as empresas não demitissem funcionários, e a Vale, com todo aquele seu poderio, demitiu 1.200 funcionários, fazendo barulho inclusive, fazendo propaganda. Uma empresa onde a folha de pagamento representa nada. O (ex-)presidente Lula, com muita razão, manifestou-se democraticamente. Ele podia ter retaliado a Vale, a Vale é uma concessão; podia ter aumentado impostos. Mas o governo não fez nada disso. O (ex-)presidente Lula usou o chamado jus sperniandi (direito de espernear, de protestar). Não vejo situação mais democrática do que essa: Lula mostrou sua insatisfação, e o senhor Roger Agnelli simplesmente ignorou, continou fazendo aquilo que achava necessário.
Professor/Monitor
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